Os outros

Uma das coisas que mais gosto, é assistir a filmes e seriados, além de relaxar me permite refletir sobre muitos aspectos. Recentemente, assisti ao seriado The handmaid’s Tale. Trata-se de um futuro distópico, no qual os estados unidos passam a ser uma república totalitária e teocrática, chamada Gilead. Nesse novo sistema de governo, as mulheres são propriedades do estado, sem direito algum e divididas em castas.

Nesse futuro, a infertilidade é  um problema mundial. Para “resolver” tal problema, o governo, como já dito teocrático, utiliza-se de interpretações extremistas de passagens bíblicas, para estuprar e brutalizar um grupo de mulheres, as servas (handmaid), através de um ritual religioso, com a finalidade de gerar filhos que serão criados pelas esposas.

Homossexuais não são aceitos nesse regime, são tratados como anomalias e quando não se submetem aos estupros ou tentam de alguma forma ir contra ao sistema em vigor, são punidas, inclusive com mutilação genital. Aliás, mutilações físicas são muito comuns, com o passar dos episódios vemos mulheres sem um dos olhos ou dedos faltando.

Bizarro hein?! O seriado foi baseado no livro “The Handmaid’s Tale”, livro escrito por Margaret Atwood em 1985. Trinta e dois anos se passaram e muitos dos problemas se repetem constantemente. Não pensamos muito a respeito não é? Vamos fazer uma pausa aqui, para termos ideia de como a coisa toda anda:

  1. Estupro: De acordo com estudo divulgado pelo Banco Mundial, é mais fácil uma mulher com idade entre 14 e 44 anos ser estuprada do que ser vítima de câncer ou acidente. <http://www.comerciariossalvador.com.br/roda-de-conversa-debate-a-culpabilizacao-da-mulher-violentada/>;
  2. Diferenças Salariais: Um relatório publicado no começo deste ano pelo Fórum Econômico Mundial (FEM) mostra que 2016 não foi nada bom quando são analisados os índices de desigualdade de remuneração entre homens e mulheres. De acordo com o documento, seguindo o mesmo ritmo de hoje, a equidade de salários entre os gêneros só aconteceria daqui a 170 anos. Até o final de 2015 esse prazo era de 70 anos, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), sendo que a diferença salarial entre gêneros diminuiu apenas 0,6% desde 1995. <http://noticias.r7.com/internacional/diferenca-salarial-entre-generos-piora-em-2016-e-igualdade-so-deve-ser-atingida-em-170-anos-07032017>
  3. Mulheres como propriedade: Uma pesquisa realizada pelo Ipea mostra que, mais de 25% concordam que mulheres devem satisfazer os maridos mesmo sem vontade. Essas pessoas não veem isso como estupro. Usar a mulher é um direito, ela não é um ser humano, existe para servir. <https://oglobo.globo.com/brasil/para-especialistas-mulheres-ainda-sao-vistas-como-propriedades-12014705>
  4. Mutilação genital: De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Unicef, a mutilação genital é realizada em cerca de 3 milhões de meninas e mulheres todos os anos e se concentra em 29 países entre o continente africano e o Oriente Médio. Até agora (2005), mais de 130 milhões de meninas e mulheres já foram submetidas ao procedimento e, se essa tendência for mantida, outras 30 milhões poderão ser mutiladas nos próximos dez anos.                   <http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2015-04-22/todos-os-anos-tres-milhoes-de-meninas-sofrem-mutilacao-genital-no-mundo.html>

Eu gostaria muito, muito mesmo, de desligar a tela suspirar aliviada por saber que trata-se apenas de ficção e que nossa sociedade jamais atingirá esse nível de horror. Mas infelizmente não é assim.

Colocando todos os fatos juntos, estupro, mutilação, etc, fica tudo muito mais pesado do que os fatos separados (não que diminua o horror). Muitos dos que vão ler o que coloquei aqui, pensarão mas é tão distante da minha realidade, não há nada que eu possa fazer. Errado. Há muito a se fazer.

Sabe aquela piada ridícula que alguém sempre teima em repetir denegrindo as mulheres e você ri? Aquele pensamento retrógrado de que há mulheres para casar e outras para se divertir? Que toda mulher nasceu para ser mãe? Que toda mulher espera por seu príncipe encantado, para ser resgatada? Então é bem aí que tudo começa, são nessas pequenas coisas que mostramos quem somos, que demonstramos aos nossos filhos o que é ou não “normal”, afinal somos seus primeiros exemplos.

Se não somos capazes de nos posicionar e servimos de inspiração nas pequenas e corriqueiras situações, jamais seremos capazes de fazer de algo maior, de sermos melhor.

Se tratássemos os outros, da mesma forma como gostaríamos de ser tratados acredito, que tudo isso teria um novo rumo. Mas o problema é exatamente esse: são os “outros”, distantes, indefinidos e principalmente esses outros não sou eu, ou ainda melhor eu ainda não senti a dor de ser esse outro.

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